Eu tenho o dom de esconder as palavras só pra mim; os sentimentos; o ar. Talvez a vontade de correr contra a correnteza seja maior do que a de ficar. Mas, não dá.
Eu já tentei de tudo. Arrumei meu guarda-roupa; joguei tudo aquilo que me fazia lembrar. Tirei da caixa minhas cartas antigas. Tirei de mim tudo aquilo que não me pertence mais. Mas, não importa. Cada um sabe a cruz que carrega no peito, já se dizia.
Não tem para onde fugir, se você olhar no seu currículo vai achá-lo: seu passado.
Não é que meu passado me condene, é só que eu não quero revivê-lo. Já o vivi uma vez. Basta!
Eu acredito que eu não seja obrigada a conviver com aquilo eternamente. Quero sentir de novo aquele friozinho na barriga sem saber o final da história. Quero um roteiro de vida só meu e escrito por mim. Quero ter coragem de falar com pessoas que insistem em me olhar com o canto do olho como se fosse estranho eu ignorá-lo. Como se eu fosse obrigada a manter meu passado presente.
Desculpa, eu odeio contradições.
Jamais corra contra o tempo. Deixa que a vida te leve.. Imagine que a vida é um mar, se você é pego pela correnteza você tem que se deixar levar. Até que ela te devolva à beira do mar. Mas, se você tentar lutar contra a correnteza, você só irá se afastar da sua realidade. E entrar num oceano desconhecido. Não se prenda demais à realidade, mas não viva em um oceano desconhecido. Apenas deixe ser levada.
Talvez meu passado seja um barco. Um barquinho velho e que eu insisto em carregá-lo comigo. Mas, pelo simples fato de ser meu; de mais ninguém. Eu posso tentar jogá-lo para alguém. Mas sempre será meu e toda vez que eu for lembrar, vai ser nele que irei pensar.
A minha vida inteira que eu insistia em negar. Os medos que eu tive e tenho; as minhas manias absurdas; os meus vícios; minhas paixões; meus amores. É nisso tudo que é feito meu barco. Que por mais que seja feio, vergonhoso para alguns, é meu. E foi dentro dele que eu aprendi o que sei hoje.
Beijos, F.

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