Talvez eu tenha tido a sorte em nascer nesse século. Nesse tempo. Eu me acostumei com a hipocrisia. Com a ignorância universal. Eu não estou dizendo que sou santa. Todo mundo é um pouquinho mal por dentro. Um pouquinho. Todo mundo, um dia, já fugiu de casa. Já mentiu para os pais. Já fez alguém chorar. E eu não sou diferente.
Eu só sou aquilo que eu realmente sinto ser.
A minha essência é maior que seu o par de silicones. Meu sorriso brilha mais que o seu cabelo pintado de luzes. Eu não preciso de um cartão de credito, eu tenho dignidade de sobra.
Quem dera, né? Bem que a vida poderia ser assim mesmo. Real. Natural.
Mas, não é.
Bem que eu podia desligar o despertador e acordar todos os dias ao meio dia. Tomar banho de chuva, sem me preocupar com o celular no bolso. Esquecer a existência do computador e do meu chefe de trabalho. Bem que eu poderia deixar, só por hoje, de pagar o aluguel e ir à praia pegar um sol. Sozinha. De óculos escuros para não ver, em claro, a realidade bater de frente comigo.
Mas, é impossível.
Sou tão mentira quanto o mundo em minha volta. Fazer o que? Eu me acostumei. Eu vivo meu dia-a-dia e no outro dia eu já até esqueci o que é cansaço.
Eu até poderia ligar o foda-se para meu personal e ir para a academia quando eu bem entendesse. Ou seja, nunca mais.
Eu sou tão humana quanto esses robos. Eu sou tão automática quanto meu carro.
Mas ai eu volto para casa, me tranco no meu quarto, olho para o Juca - meu bulldog francês - e vejo como vivo rodeada de pessoas. E mesmo assim, me sinto sozinha. Tenho tudo e mesmo assim não tenho nada.
- Falta algo né, Juca? Eu sinto isso.
Deitada na minha cama - que a cada dia parece maior para mim - eu olho pelo meu ombro esquerdo e me deparo com um retrato. Bem antigo por sinal. E olho para uma menina de vestidinho - estilo princesinha, sabe? - com sapatinhos, cujo o flash destacou bem. E ai eu enxergo alguém. Eu mesma. E vejo como eu sempre fui e sempre vou ser essa mesma menininha. Que o mundo sempre vai ser muito grande para mim quanto qualquer roupinha que eu usasse.
Eu tenho pressa de viver. Não pelo fato de eu ter nascido de 7 meses. Mas eu tenho pressa de respirar. De olhar por trás da porta e ver o que me aguarda.
- Juca, senta aqui comigo. Vou contar uma história.
Meu cachorro encosta o fucinho na minha costela e, juro, que se eu não soubesse que ele era um cachorro, apostaria que estava me entendendo.
- A história é tão minha quanto de qualquer mulher de 30 anos de idade.
Beijos, F.

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